Será que nos vemos?

Será que nos vemos? Há uma correria desenfreada lá fora. Não se sabe quem deu a ordem, mas todos saíram antes que lhes fosse anulada a vida. Não se questionam pela direção, nem tão pouco o sentido de todo este movimento acelerado. Os seus olhos são refletores de um caminhar que não lhes alcança.
Será que nos vemos? Dirigimos olhares em rotações que nos voltam para nós, onde a memória nos escapa e o significado nos foi retirado. É um mero automatismo. Tudo se trata de um abrir e fechar de olhos numa sincronia natural, mas totalmente imparcial. Fica-nos pouco e sentimos cada vez menos um pouco.
Será que nos vemos? Já nem as linhas do rosto se fixam em nós. Já nem as formas do cabelo nos levam a uma maior atenção. Perdeu-se. Fugiu-se a contemplação. São imagens que nos colocam um ou outro impulso, mas que não nos acordam. Tudo vive num sono, pois já nem o sonho lhes cativa a vida.
Será que nos vemos? Se não nos virmos, onde é colocada a nossa atenção? Se não nos virmos, onde é deixada a nossa admiração? Se não nos virmos, como nos deixaremos tocar?
Eu e tu. Nós precisamos de nos vermos. E assim decorarmo-nos por inteiro como quem se confia nas certezas da suas incertezas. Precisamos de nos vermos e sentir a vida que nos desmancha num encontro face a face.

Por isso, se não queres continuar numa cegueira que te esconde de ti e do outro, questiona-te livremente: quantos olhares se demoram em ti?

[Texto da autoria de ©Emanuel António Dias]

jacek-dylag-PMxT0XtQ--A-unsplash

[Fotografia da autoria de ©Jacek Dylag]

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