Esquecidos

A noite há muito que chegou. Agora escurece rápido, por isso apesar de ser o início da noite parece que já estamos pela noite adentro.
Vão surgindo aos poucos. Trazem consigo as suas próprias noites no meio da vergonha, do medo, da doença e dos vícios. Ali caem as máscaras. Vem ao de cima tudo aquilo que transportam e isso vai muito para além daquilo que carregam. Trazem consigo o desespero, a tristeza ou até mesmo a conformação de uma sorte que nunca tinham pedido.
Há de tudo. Mais jovens. Mais velhos. Tristes ou felizes. Energéticos ou apáticos. Existe naquele espaço e naquele momento todo o tipo de emoções e de sentimentos. Vêm à procura do alimento. Um alimento que lhes encha muito mais do que o estômago. Vêm à procura do alimento que lhes dê forças fisicamente, mas que lhes preencha uma alma que há muito não é escutada e valorizada.
Uns procuraram pela oportunidade de viver, outros apenas sobrevivem. Outros já aceitaram a sua condição e esperam apenas que o seu sofrimento acabe. Tudo isto é presenciado na forma como se relacionam uns com os outros. Tudo isto é comprovado pela forma como buscam os alimentos. Tudo isto é verificado na forma como procuram as roupas que lhes são oferecidas e que agora serão suas. Numa observação pura e sem qualquer tipo de julgamento encontram-se facilmente os traços e os comportamentos de quem tenta lutar contra a corrente.
Ali estão aqueles que um dia foram esquecidos e que se deixaram esquecer. E, a verdade é que nem sabem como se podem voltar a reconhecer. Perderam-se diante da má sorte, diante das más escolhas, diante das doenças que não são acompanhadas e diante dos vícios que lhes ateima a roubar a consciência daquilo que são e fazem.
Resta-lhes um ou outro momento em que conseguem perceber que há uma outra realidade. A mesma que lhes colocou naquela posição, mas que reconhecem que poderiam e podem vir ser a mais. E aí, nesse instante de verdadeira humanidade, surge o desabafo e o agradecimento diante daqueles que ainda lhes fazem sentir vivos e não lhes deixam esquecerem de si mesmos.
Ali, naqueles que não têm condições, estão representados todos aqueles que procuram o abrigo da sua dignidade humana. Ali estão homens e mulheres que através dos seus olhares clamam por quem lhes volte um olhar verdadeiro e sincero.

[Texto da autoria de ©Emanuel António Dias]

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[Fotografia da autoria de ©Pexels]

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