São as tuas ruas, Porto…

São as tuas ruas, Porto, que servem de abrigo. São as tuas ruas que revelam os sonhos perdidos e as escolhas mal tomadas.
São as tuas ruas, Porto, que oferecem a ilusão de uma felicidade momentânea. São as tuas ruas que no meio de tantos passos vão ficando marcadas pelos que insistem em não ver a luz.
São as tuas ruas, Porto, que no meio de tanta riqueza e prédios vão disfarçando o grito daqueles que perderam as esperanças de um dia virem a ser salvos por ti. São as tuas ruas que, no meio da noite, vão acolhendo aqueles que não oferecem lucros.
Sim, Porto, são as tuas ruas que presenciam aqueles que mergulhados na dor, no vício, no azar da vida e na pobreza de espírito, se vêem amarrados para sempre à tua calçada e ao mendigar.  São as tuas ruas que, dia após dia, verificam o avanço do mundo, mas que deixam na solidão aqueles que vão sendo mascarados com subsídios, ofertas e palavras.
São as tuas ruas, Porto, que vão sentindo em cada canto a indiferença e a despreocupação pela resolução de um problema. São as tuas ruas que assistem, constantemente, ao adiar de uma união para a verdadeira solução.
São as tuas ruas, Porto, que observam aqueles que consoante as suas possibilidades não lhes deixam, pelo menos, morrer o corpo e a mente. São as tuas ruas que vêem a comida, a palavra, o olhar e o abraço que é dado.
São essas mesmas ruas, Porto, que sofrem por saberem que a resolução teria que ir para além de tudo isto. São as tuas ruas que sabem, perfeitamente, que cada um dos seus moradores teriam que ser olhados como verdadeiros humanos e resgatados dos teus passeios.
São as tuas ruas, Porto. São elas que vão segurando as vidas que um dia foram esquecidas, por mim, por ti e por nós. São elas que nos vão lembrando que continuamos a ser parte do problema e não parte da solução. São elas que nos vão lembrando que qualquer um pode vir a ficar nelas.
São as tuas ruas, Porto. São as tuas ruas que nos inquietam e nos deixam o coração a estremecer. São as tuas ruas que nos convidam a olhar seriamente para o problema.
São as tuas ruas, Porto. São elas que não nos deixam esquecer que tudo isto se mantém, porque é muito mais fácil fazer de conta do que atuar verdadeiramente na vida de cada um.
São as tuas ruas, Porto… são as tuas ruas!

[Texto da autoria de ©Emanuel António Dias]

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[Fotografia da autoria de ©Miguel Ramos Photography]

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