Unir para servir

“Cabe ao outro atender o nosso grito, transformando-o numa palavra humana,
interpretando-o como um pedido de amor.”
Pe. José Tolentino Mendonça – O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas

É preciso unir para servir.
É preciso reunir para suportar todo o peso de uma vida.
É necessário que, na minha disponibilidade, o outro solte as lágrimas de um sofrimento inaudível.
É urgente que com a minha presença seja capaz de ouvir os silêncios daqueles que se cansaram da vida.
A partilha é fundamental, para que as vidas se deixem cruzar neste mistério que ateima em não se desvendar.
Continua a ser urgente que nos voltemos, olhos nos olhos, para que o amparo não seja mero movimento mecânico.
Neste caminho a que todos somos convidados a viver é imperativo que as nossas vidas deixem de ser autênticas ilhas inundadas pela indiferença e pelo descuido.
Não há vida nessas ilhas, nem nunca poderá haver, porque daí nunca brotará o amor e a compaixão que alimentam e dão sentido a todo o ser humano.
Não há vida que aguente o isolamento alimentado pela ganância e pelo poder.
Não há vida que aguente o grito que teimosamente não é escutado.
Naquelas vidas que se vão desleixando e silenciando, existem os sinais mais profundos de um caminho à espera de sentido.
Naquelas vidas que se vão perdendo na escuridão, existe o desejo de encontrar no outro a luz capaz de lhes iluminar as suas vivências, para que não tenham que viver, nunca mais, na amargura da interrogação.
É urgente unir para servir, para que quem reine não esqueça o valor da vida humana.
É urgente unir para servir, para que quem reine se vergue para chegar bem próximo daqueles que mais necessitam.
É urgente unir para servir, para que os últimos sejam acolhidos pelos primeiros.

[Texto da autoria de ©Emanuel António Dias]

pexels-photo-167964

[Fotografia da autoria de ©lalesh aldarwish]

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2 pensamentos sobre “Unir para servir

  1. Alberto Caeiro
    V – Há metafísica bastante em não pensar em nada.

    V

    Há metafísica bastante em não pensar em nada.

    O que penso eu do Mundo?
    Sei lá o que penso do Mundo!
    Se eu adoecesse pensaria nisso.

    Que ideia tenho eu das coisas?
    Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
    Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
    E sobre a criação do Mundo?
    Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
    E não pensar. É correr as cortinas
    Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

    O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
    O único mistério é haver quem pense no mistério.
    Quem está ao sol e fecha os olhos,
    Começa a não saber o que é o Sol
    E a pensar muitas coisas cheias de calor.
    Mas abre os olhos e vê o Sol,
    E já não pode pensar em nada,
    Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos
    De todos os filósofos e de todos os poetas.
    A luz do Sol não sabe o que faz
    E por isso não erra e é comum e boa.

    Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores
    A de serem verdes e copadas e de terem ramos
    E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
    A nós, que não sabemos dar por elas.
    Mas que melhor metafísica que a delas,
    Que é a de não saber para que vivem
    Nem saber que o não sabem?

    «Constituição íntima das coisas»…
    «Sentido íntimo do Universo»…
    Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
    É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
    É como pensar em razões e fins
    Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
    Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

    Pensar no sentido íntimo das coisas
    É acrescentado, como pensar na saúde
    Ou levar um copo à água das fontes.

    O único sentido íntimo das coisas
    É elas não terem sentido íntimo nenhum.

    Não acredito em Deus porque nunca o vi.
    Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
    Sem dúvida que viria falar comigo
    E entraria pela minha porta dentro
    Dizendo-me, Aqui estou!

    (Isto é talvez ridículo aos ouvidos
    De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
    Não compreende quem fala delas
    Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

    Mas se Deus é as flores e as árvores
    E os montes e sol e o luar,
    Então acredito nele,
    Então acredito nele a toda a hora,
    E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
    E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

    Mas se Deus é as árvores e as flores
    E os montes e o luar e o sol,
    Para que lhe chamo eu Deus?
    Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
    Porque, se ele se fez, para eu o ver,
    Sol e luar e flores e árvores e montes,
    Se ele me aparece como sendo árvores e montes
    E luar e sol e flores,
    É que ele quer que eu o conheça
    Como árvores e montes e flores e luar e sol.

    E por isso eu obedeço-lhe,
    (Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
    Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
    Como quem abre os olhos e vê,
    E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
    E amo-o sem pensar nele,
    E penso-o vendo e ouvindo,
    E ando com ele a toda a hora.

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    • Gosto bastante de Fernando Pessoa, por isso desde já fico agradecido pelo comentário.
      E sendo novo no meu blog só lhe posso dar as boas vindas e acreditar que continuará por cá a ler os meus textos.
      É uma grande visão esta a de Alberto Caeiro sobre Deus. Eu como crente também gostaria que este Deus, no qual acredito, me aparecesse como apareceu aos discípulos e o fizesse como fez com Tomé : “Vem e vê. Toca.”.
      Mas como isto da fé depende de um ato livre e de confiança plena, e não de mera piedade popular ou de acreditar porque sim, Ele continuará a revelar-Se no luar, no sol, nas flores, nas árvores e nos montes para que este sim continue a ser livre e não imposto como se um ditador celestial se tratasse.
      Uma vez mais muito obrigado e um forte abraço!

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